
Há quase 15 anos lia, pelo menos semanalmente, os textos de Daniel Piza. Um amigo na Faculdade de Direito, que estudava para ser diplomata e logo depois ingressou no Rio Branco, indicou o caderno fim de semana da Gazeta, editado pelo Daniel com excelentes críticas sobre a vida cultural no Brasil e no mundo e que continha sua excelente coluna, Sinopse.
Desde o início tornei-me um assíduo leitor do Piza e toda semana corria para as bancas para comprar a Gazeta da sexta só pelo caderno de cultura.
Depois, com a mudança para o Estadão e a criação de seu site (http://www.danielpiza.com.br/) e de seu blog (http://blogs.estadao.com.br/daniel-piza/), pude acompanhar seus textos com ainda mais assiduidade.
No oceano de trivialidade da internet, eu encontrava críticas interessantes sobre os mais variados assuntos nos textos do Daniel e enriquecia meu universo ao conhecer novos autores que ele indicava e analisava, sem condescedência.
Foi através de suas colunas que conheci escritores como Milton Hatoum, Amos Oz (e seu comovente De Amor e Trevas), compositores como Tom Waits, pintores como Iberê Camargo e Anselm Kiefer e tantos outros artistas, pensadores e intelectuais.
Quando soube da sua idade pela primeira vez, fiquei surpreso. Como ele podia ser tão jovem e já tão erudito. Embora ferino, tinha uma análise sóbria e um texto claro, sem empolações. Com frequência, discordava dele, e sempre preferi os textos sobre cultura aqueles sobre política ou futebol, mas admirava a sua versatilidade e seu estilo e concordava com a idéia de que precisamos de intelectuais que pensem os mais vários aspectos da sociedade, reconhecendo a relevância da ciência e da cultura para todos nós.
Além de erudito, Daniel Piza não tinha problema em se reconhecer como uma pessoa bem resolvida e feliz já que se considerava realizado por ter encontrado uma aptidão (como crítico cultura) e um amor (pela esposa, pelos filhos e pela família e pelos amigos), que justificavam sua existência.
Soube recentemente que pretendia ir para Nova York, onde viveria como crítico cultural acompanhado de sua esposa e filhos. E esse era outro aspecto que me impressionava no Daniel: além de ser muito precoce e determinado (abandonou a carreira jurídica, apesar de ter estudado na São Francisco) ele procurava realizar seus sonhos.
Ele dizia que tinha o sonho de escrever a biografia de Machado de Assis e, tempos depois, publicava o livro que planejava escrever. Ele queria ir para Nova York e ele iria para Nova York.
Infelizmente, ele não pode ir, mas o seu amor à vida, ao trabalho que escolheu e às pessoas que o cercavam poderão servir de exemplo para muita gente. Certamente, servirão para mim.
A vida pode ser muito injusta (o Piza tinha uma vida muito saudável, era jovem, jogava futebol), mas o mais importante é o que fazemos com ela e como nos posicionamos, como sabia o Piza e o demonstrou ao comentar o último livro do Roth, Nemésis.
Daniel Piza escreveu 17 livros, foi bom para as pessoas que o amavam e ajudou algumas pessoas, como eu, com suas indicações e análises a compreender melhor o mundo e a si mesmo.
Quando morria alguém, ele sempre escrevia: uma lágrima para...
Poderia repetí-lo e dizer, uma lágrima para Daniel Piza, mas, como não o conheci pessoalmente, preciso dizer apenas: Um obrigado para Daniel Piza.

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